segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ceará está mais multirracial

Reportagem do Diário do Nordeste, 20/11/2011.




Negros somam mais na região do Cariri e índios estão mais concentrados no Litoral Leste do Estado
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Limoeiro do Norte O Ceará está mais misturado e multicor que dez anos atrás. Tem mais pessoas que se declaram indígenas, negras e, principalmente, pardas, o que já denota a diminuição dos que se autodeclaram brancos. A região do Cariri é a que mais concentra a população negra, e o noroeste do Estado (denominação do IBGE para o que normalmente chamamos de Litoral Oeste) tem a maior parte da população indígena do Ceará. A proporção de brancos, negros, amarelos, pardos e índios é parecida entre interior e Capital, mas é mesmo em Fortaleza e na Região Metropolitana que a diferença pelo critério cor/raça do IBGE diminui. O Censo 2010, divulgado ontem em Brasília, traz dados para o Ceará que devem servir de norteadores de políticas públicas.



De todos os dados de cor e raça revelados pelo IBGE para o Ceará, o mais expressivo é da população que se declara indígena. No ano de 2000, 1,7% da população brasileira que se declarou indígena estava no Ceará. Em 2010, esse número sobe para 2,3% da população indígena nacional. Esse movimento é acompanhado, embora de forma mais tímida, em outros Estados do Nordeste. Mas para qualquer região que se olhe haverá uma evolução na autodeclaração indígena nos últimos 20 anos, isso porque no censo de 1980 não havia a categoria "indígena". Contornada a questão, as etnias não só passaram a afirmar a identidade como estimularam o reconhecimento de índios que até então se denominavam "pardos".



Litoral Leste



Depois da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), com 9.335 índios, é o noroeste do Estado (principalmente o litoral de Camocim e Acaraú) que mais concentra a população indígena, com 4.203 índios. Fortaleza concentra 3.071 pessoas que se declararam indígenas ao censo 2000. No interior, em termos absolutos, é o Município de Caucaia com o maior número de índios: 2.706. Mas em proporção à população total, é o Município Monsenhor Tabosa que concentra mais índios em relação ao restante da população: 1.934, ou 11,5% dos habitantes da Cidade. Esse número é 50 vezes maior que a média populacional indígena do Ceará, que é de 0,22% ou 19.336 pessoas. Embora esse valor represente apenas 2,3% de todos os índios do Brasil, representa um crescimento aproximado de 40% em relação a dez anos atrás.



O Município que vem depois é Itarema: 2.258 índios, ou 6% dos habitantes da cidade. Esse número é 27 vezes maior que a média populacional indígena do Ceará. É em Itarema que vivem os índios Tremembé, especialmente no Distrito de Almofala. Lá onde os líderes cacique João Venâncio e pajé Zé Caboclo lutam pelo reconhecimento das comunidades indígenas. Enfrentam batalhas judiciais com grileiros, posseiros, empresários e, organizados em comunidade, reavivaram valores indígenas, como o torém, cantigas, artesanato e o modo de viver com recursos da "mãe-natureza". Em Caucaia, que concentra o maior número absoluto de índios no Ceará (2.706), eles são, principalmente, da etnia Tapeba, uma das primeiras a se organizar, nos anos 1980, pela reafirmação da identidade.



"O aumento da população que se autodeclara indígena no Ceará revela como importante dado a necessidade de os governantes direcionarem políticas públicas também para essas pessoas", afirma Maria Amélia Leite, indigenista e representante da Missão Tremembé no Ceará.



Levando como base o segmento microrregional, é a microrregião do Sertão de Crateús que tem considerável número de índios, se comparada às demais microrregiões do Estado. Onde menos se encontra população que se declara indígena é o Vale do Jaguaribe, justamente a região que até hoje tem tradições indígenas. Mas a história do Ceará já explica há mais tempo a carência de índios na região jaguaribana, em detrimento das outras áreas do Estado. Foi lá que nos anos 1.700 aconteceu a famosa Guerra dos Bárbaros, o maior levante indígena no Nordeste, e também o maior massacre indígena já feito pelo governo do Brasil Colônia no Nordeste. O Rio Jaguaribe e a região de fronteira com o RN foram palco de batalhas.



ÍNDIOS E PRETOS
População se autodeclara mais como não branca



No ano de 2010, no País, cerca de 91 milhões de pessoas se classificaram como brancas, 15 milhões como pretas, 82 milhões se disseram pardas, outras duas milhões como amarelas e 817 mil como indígenas. Não é só o número absoluto que aumenta porque a população total aumentou. É também maior o número de pessoas que não se declararam brancas, mas pardas, negras e índias.



Há casos de quem se declarou pardo em 1991 e índio em 2010. Essa maior distribuição relativa é mais evidente nas áreas mais populosas e urbanizadas. Foi principalmente nos menores Municípios do Ceará que o IBGE simplesmente não registrou autodeclaração indígena - 15 Municípios cearenses declararam não ter índios.



No Interior do Ceará, é na região do Cariri que se concentra o maior número de pessoas que se declaram negras.



O Estado do Ceará está constituído, segundo o Censo 2010, de 31,99% de brancos, 4,64% de pretos, 1,24% de amarelos, 61,84% de pardos e 0,22% de índios. Os dados também revelam que, em números relativos, a Capital concentra mais brancos que o Interior, e a proporção de negros, pardos e índios é maior no Interior.



Metropolitana



Depois de Fortaleza, é Caucaia, na Região Metropolitana, que tem maior número absoluto de pessoas que se declararam pretas para o IBGE: 17.845, ou 4,5% da população. Mas é a cidade do Crato, na região do Cariri, com 9.753 pessoas que se declararam pretas, que se tem a maior média de negros no Interior do Estado: 8% da população do Município, ou quase o dobro da média estadual. Pretos e pardos já representam uma bem expressiva maioria no Ceará, se comparados ao censos de quatro décadas atrás.



Um dado revelado pelo Censo 2010 é que, pelo menos 15% dos Municípios, não há autodeclaração de indígena. São eles: Croatá, Ererê, General Sampaio, Guaramiranga, Martinópole, Mucambo, Palmácia, Paraipaba, Paramoti, Pires Ferreira, Potengi, Saboeiro, Tarrafas, Umari e Uruoca.



Para a Associação dos Povos Indígenas do Ceará (Apoime), o não registro não significa que não possa haver índios. Já que o censo considera a autodeclaração, podem existir casos em que pessoas de etnias indígenas não se reconheçam assim. Um caso ilustrativo ocorre no povoado Lagoa Encantada, em Aquiraz, onde vive o povo indígena da etnia Jenipapo-Kanindé. No Censo de 1991, por medo ou preconceito de se reconhecer indígena, habitantes se qualificaram como pardos. Hoje, o reconhecimento da identidade indígena do "pessoal da Encantada" é forte, e até mesmo a área já passa por processo de demarcação territorial, a ser de direito dos índios. Em algumas regiões do Estado, atualmente, grupos étnicos se mostram mais organizados, como é o caso de algumas tribos indígenas e descendentes de negros, em quilombolas.


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Melquíades Júnior
Repórter