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domingo, 21 de setembro de 2014

Etnologia Indígena na UVA/Sobral: Cacique João Venâncio e Pajé Luis Caboclo ministram aula sobre a história tremembé



Gostaria de agradecer publicamente ao cacique João Venâncio e ao pajé Luis Caboclo, do Povo Tremembé (como gostam de ser identificados), pela aula de história e etnologia proferida no último dia 18 para os alunos do curso de Ciências Sociais da UVA (a grande maioria deles, recém egressos no curso).
Pela atenção da plateia durante a fala das duas lideranças indígenas, pelas dúvidas, perguntas e debates suscitados ao longo desse encontro que, se não fosse pela limitação do tempo se estenderia ainda mais, ficou evidente a importância desse tipo de encontro para tentarmos superar esse fosso de desconhecimento que ainda persiste em grande parte da nossa população acerca dos processos históricos protagonizados pelos povos indígenas ao longo desses cinco séculos de “Brasil”.
Como antropólogo, professor e indigenista, fiquei muito feliz porque pude ver um lado positivo do desconhecimento dos nossos alunos, aquele que se traduz em curiosidade que se abre para conhecer nossa “alteridade próxima”; quando se permite que esse outro (tão perto e ao mesmo tempo tão distante) possa falar de si próprio, desconstruindo visões, imagens e representações estereotipadas e anacrônicas.
Se levarmos em consideração que os Tremembé de Almofala constituem apenas uma parte da história desse povo (ainda temos os Tremembé do Córrego João Pereira, de Queimadas, da Barra do Mundaú, de Raposa no Maranhão), chegaremos a conclusão de que temos um longo caminho a ser trilhado se quisermos realmente saber a história indígena das dezenas de povos espalhados pelo nosso Ceará, para ficarmos só aqui no nosso estado (imagina no Brasil...).
Além do exercício de desconstrução, oportunidades como estas também nos mostram o fato de que os capítulos de nossa história sobre os índios pode e deve ser revista, reescrita e ampliada (e bote ampliada nisso).
Por fim, confesso que sou admirador de João Venâncio e Luis Caboclo pela maestria com que lidam com esses encontros e a maneira segura e altiva com que ocupam esses espaços, inclusive o espaço acadêmico, e com seu modo próprio comunicam sua mensagem. Tudo isso com muito bom humor e espontaneidade.
Não é por acaso que os dois são mestres, “mestres da cultura”...









Obs: Todas as fotos desta postagem são de Tiago Silva Bezerra

sábado, 28 de junho de 2014

Experiências interculturais: alunos da UVA vivenciam aula de campo em Queimadas

Segue abaixo, depoimento da professora Amanda Silvino, do curso de Biologia da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA Sobral, relatando acerca da aula de campo realizada na aldeia Tremembé de Queimadas.

Ainda que nossa rica imaginação estivesse cheia de ideias sobre o que iriamos encontrar na aldeia dos Tremembé, todos nós fomos surpreendidos. Principalmente porque não importa quão rica seja nossa imaginação, o sentir não pode ser imaginado. Dor e felicidade, angústia e superação precisam ser vividos. Na vida acadêmica, o início de qualquer disciplina não tem nem de perto a alegria que recebemos quando iniciamos nossa grande aula na aldeia dos Tremembé de Queimadas. Senhoras, lideranças, crianças estavam lá sorrindo e esperando uma turma de vinte e oito alunos para compartilhar conosco conhecimentos, sentimentos, histórias e recordações. Fomos acolhidos com um lindo café da manhã, beiju, suco de frutas, café e bolo de milho.
Recepção na aldeia com café da manhã
Foto: Emanuelle Rocha
Acolheram-nos como nos colhem nossos avós, nos mostraram desde o inicio que somos o mesmo povo. Mas nossa história foi esquecida e enterrada. Minha avó, nascida em 1920 no interior do Piauí, em um lugarejo chamado Tocos, nunca viu nenhum índio segundo ela. Mas como eles, ela plantava milho, feijão, fazia artesanato de palha de carnaúba, cajuína e farinha de mandioca, cantava e dançava reisado, dormia em rede de tucum. Tantas coisas como eles, mas nenhuma memória. Na aldeia Tremembé eu tive a comprovação que as origens da nossa sociedade foram esquecidas e enterradas vivas. Fui ensinada a crer que índio era algo do passado, mas foi justamente em uma aldeia indígena que revivi momentos da minha criança feliz, de férias no interior de uma comunidade escondida no Piauí. Lá eu também sentava no chão para escutar lendas e mistérios das matas, que eram encantadas, que tinham vontade própria e caprichos.
Logo após nossa recepção, fomos com Elaine e Evaldo conhecer os quintais produtivos. Na aldeia o pessoal recebeu formação permitindo que conhecimento local associado aos conceitos de permacultura rendessem hectares de produção orgânica. Pudemos perceber o carinho com que a terra era tratada, reflorestada e manejada. Tocou-nos o orgulho que Evaldo sente em sustentar sua família com uma produção que não queima mais a terra e não usa mais insumos químicos.
Elaine e Evaldo (a direita) apresentam os quintais produtivos
Foto: Emanuelle Rocha

Evaldo falando sobre o sistema agroecológico de produção
Foto: Emanuelle Rocha

Além disso, Evaldo é um grande professor de agroecologia e fiquei feliz em ver os alunos da turma de Ecologia Geral vivenciando os conceitos de fertilidade dos solos, ciclo da água e dos elementos químicos, sucessão ecológica, germinação, funções da vegetação e fauna associada na regulação de pragas, manejo e ecologia de paisagens. E com muita atenção, Evaldo nos ensinou muito sobre sua ciência.
Depois de percorrermos a horta, os bananais, as áreas de reflorestamento, as plantações de pimenta de cheiro, e a lagoa desencantada, Evaldo nos levou até o Centro de Cura onde sua irmã Marluce nos recebeu. Ela é uma das médiuns que realiza os trabalhos de cura na comunidade, e com o poder dos Encantes, aconselha e encaminha a corrente de luz que cura casos de pessoas de muitos lugares do Brasil.
É a tradição dos ‘cabocos’ e o trabalho de cura é antigo, muito antigo. Marluce sabe sobre as correntes do mal, mas lá na casa de cura só se trabalha com a corrente do bem. Quando há trabalho não é permitido entrar de roupa curta, e lá não se fala ‘coisa ruim’. Marluce nos dizia o tempo inteiro que não tinha estudo, que ela não sabia de nada e não curava ninguém, que o poder é todo dos Encantes. São os Encantes que tudo sabem, tudo aconselham, promovem a cura, e foram muitos os casos de cura contados.
Pajé Marluce no Centro de Cura
Foto: Emanuelle Rocha

Já era mais de uma hora da tarde quando saímos da casa de cura para almoçar. Tivemos um banquete preparado pelas mulheres da comunidade: arroz com feijão, farofa de cuscuz, macarrão, carnes de porco, gado, galinha refogada, jerimum. A vontade era então de deitar em uma rede e simplesmente aproveitar o barulho das matas em uma sombra fresca. A temperatura do dia era amena e o clima chuvoso.  Mas nossa ‘siesta’ foi incrivelmente melhor!
Ao término do almoço caminhamos até a casa do Seu Manuel e Dona Rita Sabino e fomos acolhidos por um amor incondicional. Sentados à sombra da mangueira vimos seu Manuel declarar sua paixão à Dona Rita em mais de sessenta anos de casados.
Manoel Félix, Sebastiana e Rita Sabino narrando histórias da aldeia
Foto: Emanuelle Rocha

Ela é três anos mais velha que ele, e aos oitenta e nove anos nos contava como hoje eles vivem muito melhor do que antigamente. Já haviam passado muita fome e muito frio, mas a alegria de viver nunca foi perdida. Cantando cantigas do Torém, seu Manuel relembrava suas origens desde Aroeira, passando por Almofala, chegando à lagoa dos nêgo (Lagoa dos Negros) e depois na comunidade de Queimadas. Assim foi chamada por causa de uma grande queimada que havia ocorrido no local, e que não havia deixado nem um pé de planta em pé. Era tudo preto igual carvão. E lá ergueram uma palhoça, uma casa de pau-a-pique e finalmente o tijolo chegou. Para eles a situação hoje é muito melhor e ninguém passa mais a dificuldade já vivenciada. Sempre nos lembrando de que passar por dificuldade não é vergonha para ninguém e que a história tinha que ser contada.
A comadre de Dona Rita e Seu Manuel, Dona Sebastiana, mostrava as casas de tijolo construídas pelos mais novos e dizia: “tijolo é só ilusão, eu gosto mesmo é da minha casinha ali. Eu que levantei com minhas próprias mãos e é lá que eu preparo as garrafadas”.  Ela é uma das mulheres que aprendeu a medicina da mata e prepara os medicamentos para todo tipo de enfermidade.
Local onde Sebastiana prepara garradas
Foto: Emanuelle Rocha
Muita conversa e muita história dos mais velhos. História de amor de Seu Manuel e Dona Rita, forte para ajudar a superar uma situação de miséria que havia ficado no passado. Diante de tanta alegria perguntei se eles cantariam alguma música do Torém. Dona Rita mostrava tristeza apenas por não poder mais dançar a tradição dos Tremembé. A doença que a acometera limitou a movimentação do lado direito do seu corpo. Ainda assim, cantava com alegria as cantigas do Torém e seu Manuel, de pé, nos mostrava como era a dança.
Naquele momento o tempo parecia ter parado e nada mais existia no mundo, apenas a corrente de alegria que crescia o desejo de ficar, de aprender e vivenciar muito mais com aquela gente todo aquele encanto. Infelizmente chegou momento de partir.
Se despedindo...
Foto: Emanuelle Rocha

Com muito amor Dona Rita levantou-se de sua cadeira e abraçou cada um de nós, Seu Manuel acenava com a Mão, Dona Sebastiana nos convidava a voltar sempre que quiséssemos. Trouxemos conosco muito aprendizado, muita alegria e muito mais respeito a uma história que não é de outro povo, mas a nossa própria nos mostrada naquele momento. 

E na próxima lua clara seu Manuel fará um grande Torém no quintal de Dona Sebastiana, Dona Rita cantará as cantigas e os mais jovens, com a força dos Encantes, continuarão a tradição que um dia, sem mais ameaças, se mostrará livremente a cada um de nós.
Foto da turma em frente à escola indígena
Foto: Emanuelle Rocha

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Interculturalidade, ecologia e organiização política indígena marcam I Ciclo de Vivências com os Tremembé de Telhas

Foto: Caroline Moreira

Entre os dias 18 e 21 de julho, os Tremembé de várias localidades, pesquisadores, estudantes e professores estiveram participando do I Ciclo de Vivências na aldeia Tremembé de Telhas. Como foi informado na postagem anterior, o evento surgiu como desdobramento do projeto voltado para mulheres indígenas, financiado pela Carteira Indígena.

No entanto, novas demandas postas pela comunidade anfitriã, junto com outras proposições, ampliaram a proposta original do evento, que previa a realização de um encontro de mulheres, um seminário e uma assembléia geral para balanço das atividades do projeto. A comunidade organizadora, com o apoio de técnicos e instituições parceiras, deliberou pela realização de um evento que pudesse ao mesmo tempo: realizar as atividades do projeto citado; possibilitar um espaço para vivências entre o povo Tremembé de várias aldeias, não-índios interessados em conhecer a realidade indígena local e também dar visibilidade às comunidades Tremembé.

O evento foi realizado através da parceria entre os conselhos indígenas de Telhas e Queimadas, que mobilizaram as respectivas aldeias para participar da programação do evento. Além disso, tivemos a presença de representantes das comunidades Tremembé do Capim Açu, São José, Almofala e Varjota. Destaque para a participação do Cacique João Venâncio e do Pajé Luis Caboclo, presentes durante todo o evento.

Além das atividades programadas no projeto, foram incluídas oficinas ecológicas de bioconstrução (reboco e pintura natural), no intuito de que tanto os indígenas quanto  os demais participantes pudessem reconhecer o valor e a riqueza dos materiais disponíveis na própria terra indígena, de modo a valorizar os conhecimentos locais no que se refere às construções tradicionais, como também minimizar os custos com a construção das casas e outros prédios. Além disso, outros componentes relacionados ao design das habitações foram trabalhados com os participantes.


Abertura com o Seminário de Inclusão Produtiva (18/07)


























Torém, 18/07/2013
Foto: Ronaldo Santiago
 
Momento teórico da oficina de bioconstrução, 19/07/2013
Foto: Iago Barreto
Preparando a massa do reboco com o barro
Foto: Iago Barreto
Botando a mão na massa, literalmente
Foto: Iago Barreto
Dona Maria rebocando
Foto: Iago Barreto

Homens e mulheres participando do trabalho
Foto: Iago Barreto
Com relação á pintura, os Tremembé puderam ensinar a produção de tintas naturais cuja base são folhas, sementes e cascas de árvores existentes no próprio local. Ao mesmo tempo, tiveram a oportunidade de aprender outras técnicas de produção de tintas e de pintura em diversos ambientes. Além disso, os Tremembé foram estimulados a produzir grafismos levando em consideração os elementos naturais, culturais e cosmológicos de suas próprias localidades.
Essa atividade foi importante, sobretudo, porque envolveu jovens, homens e mulheres que participaram efetivamente da parte teórica e prática, proporcionando momentos de muita interação, bom humor e aprendizado. O objetivo principal das oficinas é o de reformar a Tapera do Artesanato, espaço instituído pela comunidade local para a produção do artesanato, geralmente realizada de forma coletiva. Além disso, o local abrigará também a sede do Conselho Tremembé de Telhas. Como não foi possível concluir a reforma da Tapera, os participantes exercitaram as técnicas de pintura mural na escola da aldeia.

Momento de construção de símbolos e grafismo indígena com o instrutor André
Foto: Iago Barreto
Foto: Iago Barreto

Preparando tintas naturais
Foto: Iago Barreto

Foto: Iago Barreto
Foto: Iago Barreto

Juventude indígena exercitando a pintura
Foto: Iago Barreto

Arte coletiva
Foto: Iago Barreto
A programação contemplou espaços de articulação dos Tremembé, de discussão sobre a política indígena e indigenista e sobre os resultados dos projetos desenvolvidos ao longo dos últimos quatro anos nas aldeias de Telhas e Queimadas. No Encontro de Mulheres, os convidados discorreram sobre os espaços que as mulheres indígenas estão conquistando ao ocuparem funções nas associações e conselhos indígenas, como também nas atividades produtivas, desempenhando papel de destaque na renda familiar. Ceiça Pitaguary, palestrante da noite, enfatizou que a luta das mulheres indígenas já é bem antiga, mas que nos últimos anos tem conquistado mais espaço. Exemplo disso foi o edital da Carteira Indígena direcionado especificamente para as mulheres, no qual Telhas e Queimadas tiveram seus projetos aprovados.
Além das rodas de conversa e das discussões temáticas, um dos momentos mais esperados era o do torém, brincadeira de todas as noites e que mobilizou os Tremembé de várias aldeias e demais participantes do evento. Seu Miguel Arcanjo, morador da aldeia São José disse que brincaria até o amanhecer se o torém continuasse. A alegria dos Tremembé contagiou todos os presentes.

Cacique João Venâncio iniciando com uma oração, 18/07/2013
Foto: Caroline Moreira

Encontro de Mulheres Tremembé, 19/07/2013
Foto: Iago Barreto
Comunidade indígena reunida
Foto: Iago Barreto
 

Ceiça Pitaguary (APOINME), palestrante da noite, 19/07/2013
Foto: Iago Barreto
Pajé Luis Caboclo palestrando, 19/07/2013
Foto: Iago Barreto
Cacique João Venâncio falando sobre a política indigenista, 20/07/2013
Foto: Iago Barreto
João Venâncio e Isabel, Coordenadora do CITCT
Foto: Iago Barreto
Torém, 20/07/2013
Foto: Iago Barreto
Torém, 20/07/2013
Foto: Iago Barreto

Torém, 20/07/2013
Foto: Iago Barreto
O sucesso do I Ciclo de Vivências com os Tremembé foi uma das pautas da assembleia geral realizada no domingo pela manhã. O cacique João Venâncio propôs que o evento fosse realizado todos os anos, e de forma itinerante, de modo que todas as aldeias Tremembé tenham a oportunidade de sediar o evento.
Além disso, as lideranças da comunidade anfitriã formularam uma carta de reivindicações, a ser anexada ao documento da Assembleia do Povo Tremembé que acontecerá entre os dias 29 e 31 de julho. Entre as reivindicações, os Tremembé solicitam ao MMA e a FUNAI a continuidade e o fortalecimento da Carteira Indígena, programa governamental de fundamental importância para os povos indígenas. Água potável, unidade de saúde e construção de uma escola são pautas antigas da comunidade de Telhas, mais uma vez reivindicada.
O resultado desses dias na presença dos Tremembé, conhecendo e vivendo um pouco de seu cotidiano, é a constatação da “biodiversidade do povo Tremembé” (fala do cacique João Venâncio) que o torna fascinante, tanto para quem já conhece um pouco da história desse povo, mas que a cada dia aprende e se encanta um pouco mais com essa gente, como também para aqueles que tem o privilégio de ter os primeiros contatos. São experiências como estas que nos fazem estar ao lado dos povos indígenas em suas lutas e pleitos.
Abaixo seguem os depoimentos de alguns participantes sobre as impressões e experiências sobre o Ciclo de Vivências Tremembé.


O ambiente da comunidade de Telhas tornou-se familiar a mim em menos de 24 horas. E em mim ficou também um sentimento de pertença bastante familiar em comunidades indígenas. Eu ralei jenipapo num ralador enorme e (muito) amolado. Não foram poucas as vezes que os dedos esbarraram nas pequenas lâminas... Mas pela primeira vez senti orgulho das cicatrizes e das manchas escuras que ganhei nas mãos. De fato, são marcas que demoram para sair; e que bom, porque são lembranças vivas de uma experiência que está causando em mim transformações irreversíveis... E inevitáveis. Por isso compreendi o que Filipe, oficineiro de reboco natural, disse no encerramento acerca das marcas nas mãos enquanto lembrança porque senti algo que acredito ser bem semelhante.
A energia emanada durante uma roda de torém não pode ser explicada em sua totalidade a quem não a vivenciou. É mais do que o ápice do sentimento de pertença. É uma sensação (ou emoção...) de força imensurável que nos remete à presença de uma memória ancestral sendo compartilhada. Os índios cantadores e tocadores no centro da roda fazendo música ao som de maracás e instrumentos de percussão e nós todos dançando em círculo, girando no sentido anti-horário com passos curtos, no meio da noite, à meia luz... 
E em meio a oficinas, grandes e pequenas rodas de conversa, risos, torém... O que foi melhor? Não é possível dizer porque tudo foi incrível. De volta a Fortaleza, fui dormir feliz; ainda junto à minha constante inquietude, pela qual hoje em muitos momentos sou grata. Mas agora se uniu a ela uma sensação gostosa de ter encontrado e construído vínculos com gente de verdade, de coragem e amor pelo que faz.
Aline Rebouças, estudante de Psicologia / UNIFOR e membro do MUVIC


Devo dizer que o I Ciclo de Vivências na Aldeia Tremembé de Telhas, a meu ver, foi uma experiência exitosa, tanto do ponto de vista organizacional, quanto da participação das pessoas. Os responsáveis pela ideia e pela organização instigaram à participação, articulando as rodas de conversa e incentivando jovens indígenas a participarem das oficinas de pintura e de permacultura, o que enriqueceu sobremaneira esse evento.
A participação da comunidade e de outras vizinhas também foi bastante positiva, fomentando o desejo de realização de evento similar nessas comunidades. Frutos com certeza virão e serão generosos, trazendo benefícios sociais, políticos e econômicos para as comunidades envolvidas.
Antonio Neto, Coordenador da CTL-FUNAI/Itarema


O Ciclo de Vivências foi, além de uma etapa cumprida do projeto, um acontecimento que fará parte do nosso dia-a-dia. E o mais importante foi o resgate de conhecimentos tradicionais que até o momento não tínhamos noção de fazê-lo acontecer, sem contar com o principal: tudo material natural, disponível na nossa aldeia.
Rosiane Tremembé, secretária do CITCT


Tive a minha segunda experiência em terras Tremembé. Dessa vez, na aldeia de Telhas, em Acaraú, para o I Ciclo de vivências (dessa Aldeia e também de Queimadas). A programação do evento encaixou-se em harmonia nos dias que se desenrolaram e tinha ênfase na organização das mulheres para a confecção do artesanato em biojóias e também nas formas das comunidades se relacionarem com o meio ambiente para garantirem a produção e reprodução de suas vidas. Demonstrando que proteção do meio ambiente não significa deixa-lo intacto, mas relembrar que também somos parte dele e podemos nos relacionar em simbiose com o mesmo. E essa relação, que é de transformação de ambos, é o que chamamos cultura, mas não qualquer cultura, não a cultura da opressão e do lucro, os Tremembé resistem, recriam, produzem e influenciam fazendo cultura. Esse foi o maior acúmulo do I Ciclo.
Depois da constatação dos retrocessos que o atual governo vem desenvolvendo para as políticas indígenas, era preciso renovar as esperanças e reaquecer a luta, e dançamos com alegria e força o último torém do Encontro. E para deixar ainda mais claro o que o I Ciclo representou, vale citar um índio mexicano e lutador: “que no caminhar dessa construção não deixemos de dançar, cantar e sorrir, que nos mantenhamos felizes apesar dos erros, problemas e desafios, das distâncias que separam geografias e calendários. Pois a construção desse novo mundo florescerá dos corações que hoje batem em rebeldia coletiva e que colocaram a girar a roda da história em seu longo caminho para, finalmente, adentrar na historia da humanidade”.
Repetindo alguma fala da avaliação do evento, torço para que os laços entre nós da cidade e os Tremembé se estreitem e possam contribuir com eles à altura do que eles contribuem para nós, nos ensinando a ser gente, nos fazendo relembrar a tradição que o colonizador quis apagar com sangue índio e negro derramado, mas para sua ira, persiste, resiste e se expande. Viva o povo Tremembé!

Leonísia Moura Fernandes, estudante de Direito / UNIFOR e membro do Muvic



A fotografia trabalha essencialmente com luz, usa para compor imagem e recortar detalhes. Fotografando os Tremembé, percebo que eles emanam luz própria, e que possuem a força simples que falta a cada vez mais complexa civilização. Em meio às dificuldades, o povo Tremembé se ergue e demonstra no torém e na vivência a sua razão de estar ali, puramente o viver, essa é a força simples.
A luz própria já é mais difícil aos olhos externos, ao dançar o torém me foi pedido que tirasse as sandálias para sentir a terra, um pequeno exemplo simples, da natureza luminosa dessas pessoas, que contada em exemplos não pode ser extraída para a lógica, não se pode entender plenamente o porquê dessa luz, somente no contato com a terra ou na vivência espiritual de alguns, mas é possível com bons olhos ver a luz que transborda aos olhos quando se convive com esses fantásticos indígenas.

Iago Barreto, estudante de Audiovisual e Novas Mídias / UNIFOR, membro do Muvic


Pessoal, agradeço os bons exemplos que se tornaram eternos nestes dias que passamos juntos.
A vida é feita de gente como vocês. Eficientes porque sabem fazer. Eficazes porque sabem como fazer e efetivas porque tem a durabilidade necessária para ser bem feita.
Continuo com a mesma felicidade do primeiro encontro e com a certeza que nunca mais vou ser guloso para não preocupar vocês. Abraço com gratidão!
Everthon Damasceno, produtor cultural



Agradecimentos:

  • Equipe de trabalho e organização do evento (cozinheiras, equipe de limpeza, pedreiros, serventes, voluntários, lideranças locais, comissão organizadora);
  • Conselho dos Índios Tremembé do Córrego das Telhas - CITCT;
  • Cacique João Venâncio;
  • Pajé Luis Caboclo;
  • Ceiça Pitaguary - APOINME;
  • Elaine Nascimento - CITQ;
  • Marcondes Marciano - CITQ;
  • Luis Gustavo - Carteira Indígena;
  • GATI;
  • Clóvis André;
  • Filipe Andrade;
  • Vereador Nacélio Cruz (Pres. Câmara dos Vereadores Acaraú);
  • Antonio Neto - CTL/FUNAI - Itarema;
  • Muvic;
  • Everthon Damasceno;
  • Iago Barreto;
  • Caroline Moreira;



Viva o Povo Tremembé!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Prêmio Cultura Indígena para os Tremembé de Acaraú


Parabéns às comunidades indígenas do Ceará!

No Ceará foram habilitados 6 projetos para o Prêmio Culturas Indígenas 4ª Edição Raoni Metuktire, sendo 02 no valor de R$ 20 mil e 04 no valor de até R$ 15 mil. No intuito incentivar o maior número de contemplações em todo o território nacional, foi informado que no Ceará serão premiadas somente 3 propostas. De forma que seja 01 projeto no valor de até R$ 20 mil e 02 propostas de até R$ 15 mil.


Enviamos 02 propostas para concorrer, tanto para a comunidade de Queimadas "Tradição e Memória dos Índios Tremembé de Queimadas", quanto para a aldeia de Telhas "Sabores e Saberes dos Índios Tremembé". No entanto somente um uma foi contemplada. Isso nos deixa feliz e um pouco triste ao mesmo tempo, pois nosso desejo é de que tivessem sido contempladas as duas comunidades. Mas sabemos que nem sempre iremos conseguir.

Esse resultado é fruto de uma oficina sobre Elaboração de Projetos para Indígenas com as lideranças das duas aldeias. Essa oficina fez parte de uma atividade do Projeto da Carteira Indígena, que foi aprovado no ano de 2010, também para as duas comunidades. Para a realização da oficina, aproveitamos que havia um edital aberto do Prêmio Cultura Indígena e focamos a oficina para a elaboração do projeto no valor de R$ 15 mil, assimilando assim a teoria à prática. Na oficina reunimos os mais velhos, as lideranças espirituais, do Rezo, puxadores de Torém, associação e professores para traçarmos o que a comunidade desejava ter como prioridade a ser trabalhado.

Em Queimadas será trabalhada a documentação e memória das práticas agrícolas de cunho agroecológico, os processos de cura através do uso de plantas medicinais e das manifestações religiosas esprituais, o Torém e o Rezo. Abaixo segue a lista dos projetos aprovados.

Para maiores informações clique aqui.


Agradecimentos:

  • Luiz Gustavo - Analista Ambiental - Carteira Indígena Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável - SEDR/MMA
  • Ceyça Pitaguary
  • Fernanda Sindlinger - Responsável pelas organização das oficinas do Prêmio Cultura Indígena
  • Everthon Damaceno