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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Índios Tremembé de Itapipoca prendem servidores da FUNAI na TI. Barra do Mundaú

Servidores da FUNAI são mantidos reféns na TI. Barra do Mundaú. Entre eles, o chefe da CTL de Itarema, Jorge (de boné)
Fonte: facebook

Os índios Tremembé da terra indígena Barra do Mundaú, em Itapipoca, mantém sob seu domínio quatro servidores da FUNAI que se dirigiram ao local para participar de uma reunião com a comunidade indígena local. Entre eles está o chefe da Coordenação Técnica Local da FUNAI em Itarema, Jorge. Em carta divulgada nas redes sociais, os Tremembé justificam que esta atitude de manter os servidores detidos na aldeia foi motivada pela ausência de ações concretas da FUNAI, do MPF e dos órgãos de fiscalização ambiental diante do quadro de graves conflitos intensificados desde o mês de setembro, quando moradores não-índios que vivem no local atearam fogo no acampamento por duas vezes, destruíram casas e desmataram áreas dentro da TI. Há suspeitas de que essas pessoas, contrárias à demarcação da terra indígena, estejam sendo influenciadas por pessoas ligadas ao grupo que tenta construir um resort de luxo em área que incinde sobre a terra indígena. De acordo com Erbênia Rosa, “No dia 10 de setembro, queimaram as barracas e, um mês depois, um grupo de 15 homens armados chegaram à aldeia, derrubaram a cerca e uma casa de alvenaria que tínhamos construído para as reuniões da associação. Eles chegaram com um advogado dizendo que era da empresa espanhola” (fonte: Jornal O Estado, 11/11/2014)). Desde então, os indígenas vem denunciando as agressões aos órgãos federais.

Barraca do acampamento de área retomada pelos índios sendo incendiada (outubro de 2014)
Fonte: facebook
Casa de alvenaria que servia como local de reunião dos indígenas sendo destruída (outubro de 2014)
Fonte: facebook
No último dia 12 de novembro, o MPF conseguiu, junto à Justiça Federal, uma liminar que suspendia a licença do complexo turístico Nova Atlântida Cidade Turística Residencial e de Serviços. De acordo com o documento, "a empresa deve se abster de realizar qualquer ato concreto que ameace ou perturbe a posse de integrantes da Comunidade Indígena Tremembé de Barra do Mundaú, sob pena de aplicação de multa" (veja mais detalhes AQUI).
A decisão da justiça parece não ter intimidado proprietários e não-índios que vivem na área, ao contrário. Nas últimas semanas as principais lideranças indígenas do local receberam ameaças: “Entramos em contato com os Direitos Humanos, que enviou policiamento para nos proteger. Estamos em um momento difícil, escutamos a todo instante que estamos juradas de morte”, afirmou Erbênia ao jornal O Estado.
Em setembro as lideranças locais Adriana Carneiro e Erbene Rosa gravaram um depoimento onde relatam a resistência dos Tremembé da Barra do Mundaú e a luta deste povo para manter seu território (veja o vídeo AQUI).
A comunidade indígena em passeata realizada em novembro de 2014
Fonte: Julivan Veríssimo (facebook)

Cumpre assinalar que o relatório circunstanciado da TI Barra do Mundaú já foi concluído desde 2012 e o processo de demarcação encontra-se paralisado por determinação do Ministério da Justiça.
Não obtendo respostas concretas dos órgãos competentes, os Tremembé tomaram uma atitude extrema e prenderam os servidores da FUNAI que participavam de uma reunião na terra indígena e afirmam que só vão liberá-los quando tiverem uma resposta dos órgãos federais envolvidos do caso.
Veja abaixo o relato das lideranças divulgado nas redes sociais:

"Nós índios da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Itapipoca-CE, vem sofrendo constantes invasões, desmatamentos e ameaças desde Setembro do corrente ano na aldeia São José, diante disso já recorremos a FUNAI, Ministério Público e IBAMA, mas até o momento nenhuma posição foi tomada, resolvemos tomar uma atitude. Hoje pela manhã chegaram em nossas aldeias quatro representantes da FUNAI e as aldeias já estavam organizadas no acampamento para ouvir o que tinham a nos dizer e após ouvi-los o povo Tremembé de Itapipoca resolveram que esses representantes irão sair da aldeia somente quando tiver uma posição dos Orgão Federais citados acima. Pedimos apoio aos nossos parentes e demais orgão que nos apoiam para nos fortalecer nesse momento".


domingo, 26 de maio de 2013

A festa da demarcação: índios Tremembé comemoram portaria declaratória da TI Tremembé de Queimadas


Foi uma festa linda, alegre, bonita mesmo. Os Tremembé estavam em festa no último sábado (25/05), por ter dado mais um passo rumo á conquista definitiva da TI. Tremembé de Queimadas. Festejaram a Portaria nº 1.702 de 19 de abril de 2013, que declara de posse legítima a terra dos Tremembé de Queimadas.
As lideranças locais passaram a semana se preparando, arrecadando contribuições das famílias para comprar os alimentos que seriam oferecidos durante a festa. Um grupo de mulheres ficou na cozinha preparando a comida, outro grupo de homens foram para o mato em busca de madeira e palha para levantar uma palhoça na área central da aldeia para recepcionar a todos e dançar torém, reizo e forró.
Adultos e crianças fazendo os últimos ajustes na palhoça redonda
Mulheres preparando a comida ao longo do dia

No início da noite, um ônibus vindo de Almofala trazia o cacique João Venancio, o Pajé Luis Caboclo e outros da região da praia, além de um grupo de estudantes e professores universitários que visitavam Almofala nesse dia.
Enquanto a cerimônia não começava, um pequeno vídeo, produzido por um professor indígena, projeta num telão o depoimento de Dona Rita Sabina e Manoel Félix, dois idosos das Queimadas, contando um pouco da história do local, da lagoa do Amargoso, encantada pelo pajé João Cosmo com “sete encantos”, onde Rita, quando crianca, por pouco não foi apanhada pelo encantados.

João Félix (esq.) e Manoel Félix assistindo o vídeo
Eu e Dona Rita Sabina
Por volta das 19 horas, uma grande quantidade de pessoas de aglomeravam no pátio central. Outro ônibus trouxe gente das Telhas, aldeia vizinha, e de muitos parentes dos anfitriões. Um grupo menor da aldeia São José (Córrego João Pereira), também compareceu para prestigiar os “parentes”.
A festa começou com a apresentação do torém infantil dos alunos da escola. Logo após, lideranças de Queimadas tiveram a oportunidade de falar sobre “a luta” e as conquistas da aldeia. 

Torém das crianças
O Cacique João Venâncio saudou os presentes, disse de sua alegria de estar alí, alertou a comunidade que também era momento de pedir aos encantados para ajudar nesta próxima etapa do processo de demarcação. Fez um apelo para a unidade do grupo e para que se evitassem disputas pelo poder. Finalizou sua fala colocando-se à disposição dos Tremembé das Queimadas quando precisassem.
Luis Caboclo também saudou os donos da festa, parabenizando-os pela conquista parcial. Além disso, elogiou os Tremembé de Queimadas pela organização comunitária e pelas mudanças ocorridas nos últimos anos.

Cacique João Venâncio 
Pajé Luis Caboclo
Florêncio Sales (Missão Tremembé)
Depois das lideranças indígenas, parceiros dos Tremembé de Queimadas também manifestaram alegria e satisfação pelo momento vivido pelos indígenas, reiterando o apoio à comunidade. Estavam presentes representantes da Secretária de Assistência Social de Acaraú, o vereador e presidente da Câmara, Nacelio Cruz, o coordenador da CTL de Itarema, Antonio Neto, Florêncio Sales, da Missão Tremembé, Ronaldo Santiago e Tiago Silva, técnicos que acompanham os Tremembé de Acaraú desde 2009.

Sra. Malú (à direita), da Secretaria de Ação Social/Acaraú
Antonio Neto (FUNAI - CTL Itarema)
Vereador Nacélio Cruz (Presidente da Câmara dos Vereadores de Acaraú)
Tiago e um grupo de estudantes e professores da UNIFOR que foram conhecer os Tremembé de Queimadas

Após os depoimentos, João Félix, Manoel Félix e Julio Custoso, fizeram uma apresentação de sapateado, improvisando algumas parte do “reizo”.


Improviso dos velhos: versos e sapateados do reizo

Mas o ponto alto da noite ficou por conta da apresentação do torém, que reuniu os Tremembé de várias aldeias, comandados por João Venancio e Luis Caboclo. Uma grande roda foi formada e envolvia crianças, jovens, idosos e alguns visitantes. Certamente, uma das festas mais bonitas realizadas nos últimos anos em TI Queimadas. Veja nas fotos abaixo.


Indígenas e parceiros prestigiando a festa


Pajé Marluce
Navura

Luis e João conduzindo o torém

Marcondes Marciano e Paulo Nascimento (Queimadas)

Fransquin e Júlio, filho e irmão do saudoso pajé Zé Tonheza
Dona Sebastiana e Lúcia (atrás)


Texto:  Ronaldo Santiago    Fotos:  Ronaldo Santiago 
Tiago Silva Bezerra

domingo, 28 de abril de 2013

O Povo: Processo de demarcação de terra no Ceará avança

Ritual resgata tradição indígena tremembé no Ceará. "A cada regularização, comprovamos nossa cultura, nossa história, nossa luta", diz Dourado Tapeba. FOTO: Francisco Fontenele

Terra Indígena Tremembé de Queimadas, em Acaraú, avança na demarcação de sua área com publicação da portaria. Processo segue com demarcação administrativa e homologação presidencial.


O processo de demarcação da Terra Indígena Tremembé de Queimadas, em Acaraú, avançou mais uma etapa com a publicação no Diário Oficial da União da portaria declaratória de posse permanente da área de 767 hectares ao povo Tremembé, na última segunda-feira, 22.


Além da Terra Indígena Tremembé de Queimadas, as terras Guanabara, do povo Kokama, em Benjamin Constant (AM) e Cué Cué/Marabitanas, dos povos Baré, Warekena, Baniwa, Desano, Tukano, Kiripako, Tariana, Pira-Tapuya e Tuyuka, em São Gabriel da Cachoeira (AM) também foram declaradas com a assinatura do ministro da Justiça.


A partir da portaria nº 1.702, datada de 19 de abril deste ano, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deve promover a demarcação administrativa da Terra Indígena. Após a demarcação, o processo passa por homologação da Presidenta da República.


Ricardo Weibe Nascimento Costa, coordenador da Regional Nordeste II da Funai, explicou que a terra já havia sido identificada e delimitada e, agora, os limites geográficos são indicados e oficializados. Segundo ele, a partir desse ponto, a Funai realizará a demarcação física, afixando placas nos limites de identificação. Weibe indica que será realizada articulação com a Funai em Brasília para a descentralização de recursos e o andamento desta etapa, ainda sem prazos definidos.


Também é necessária a realização de ação de extrusão, segundo Weibe, em que todos os ocupantes não índios identificados anteriormente pela Funai possam ser retirados e reassentados em outras áreas. A última etapa é o registro da terra indígena como patrimônio da União. A comunidade de Queimadas, no caso, fica com o uso exclusivo da área.


À espera

No Ceará, somente uma terra indígena possui a demarcação finalizada, a Tremembé do Córrego João Pereira, área vizinha a de Queimadas, lembrou Weibe, da Funai. Para Dourado Tapeba, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), cada demarcação e regularização de terra indígena é uma vitória para o Ceará, o Nordeste e o Brasil.


Ele explica que, no caso de Tremembé de Queimadas, não haverá retrocesso no processo, pois houve diálogo decisivo com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), antes empecilho para a demarcação. O longo conflito com o Dnocs ocorreu pelo uso de uma área da terra indígena para a construção do Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú, caso iniciado ainda na década de 80.


Ele ressalta que a maior parte dos processos demarcatórios estão na esfera judicial, com empresas e grupos querendo provar que não existe índio e, consequentemente, terra indígena no Estado. “A cada regularização, comprovamos nossa cultura, nossa história, nossa luta”, enalteceu Dourado Tapeba.



Como


ENTENDA A NOTÍCIA


O processo de demarcação da terra indígena Tremembé de Queimadas continuará com procedimento da Funai para a sinalização com placas e marcos dos limites da área, assim como diálogo com possíveis ocupantes não índios.



Passo a passo do processo de demarcação de terras indígenas


A demarcação será fundamentada em estudo antropológico de identificação.
Estudos complementares de natureza etno-histórica, sociológica, jurídica, cartográfica, ambiental e levantamento fundiário necessários à delimitação serão realizados por grupo técnico especializado, indicado por órgão federal de assistência ao índio.


Após a conclusão dos trabalhos de identificação e delimitação, o grupo técnico apresentará relatório ao órgão federal de assistência ao índio, caracterizando a terra indígena em processo de demarcação. Com a aprovação do relatório, ele deverá ser publicado, em quinze dias, nos Diários Oficiais da União e do Estado.


Até 90 dias após esta publicação, estados, municípios e demais interessados poderão se manifestar com pedidos de indenização ou demonstrar equívocos no relatório, munidos de toda a documentação necessária.


O órgão federal deverá encaminhar o processo ao ministro de Estado da Justiça com pareceres relativos às razões e provas apresentadas.


Após o recebimento, o ministro poderá decidir pela declaração dos limites da terra indígena e determinar a demarcação; prescrição de diligências que julgue necessárias, que deverão ser cumpridas em 90 dias ou pela desaprovação da identificação, fundamentando sua decisão.


Caso seja verificada a presença de ocupantes não índios na área demarcada, o órgão responsável realizará o reassentamento, de acordo com a legislação.


A demarcação deve ser homologada mediante decreto. Após homologação, o órgão federal de assistência ao índio realizará o registro em cartório imobiliário da comarca correspondente. O Decreto indica que o grupo indígena envolvido deverá participar do procedimento em todas as suas fases.

OBS: de acordo com o Decreto nº 1.775, de 1996.

Fonte: Jornal O Povo 28/04/2013.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Demarcação da TI Tremembé de Queimadas


No último dia 19 de abril, pouco mais de um ano da publicação do relatório de identificação e delimitação no Diário Oficial, o Ministro da Justiça Eduardo Cardozo publicou a Portaria nº 1.702, que declara de posse permanente do grupo Tremembé a Terra Indígena TREMEMBÉ DE QUEIMADAS com superfície aproximada de 767 hectares (DOU, 22/04/2013. Ver imagem abaixo). Depois de mais de duas décadas de conflito com o DNOCS, finalmente a referida comunidade indígena tem seu território declarado, aguardando agora a demarcação física e posterior homologação pela presidenta Dilma.

Diário Oficial da União, 22/04/2013

Elaborei um pequeno texto informativo discorrendo brevemente sobre as origens deste grupo e o processo de reconhecimento étnico em curso.


A SAGA DOS TREMEMBÉ DE QUEIMADAS: DIÁSPORAS E RESISTÊNCIA INDÍGENA


Ronaldo Santiago Lopes (PPGAS/UFRN)

A Terra Indígena Tremembé de Queimadas está localizada há 34 km da sede do município de Acaraú, estando margeada pelo Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú. A história dos índios Tremembé de Queimadas se insere no contexto de uma série de dispersões que se iniciam no final do século XIX, forçadas inicialmente por uma das piores secas vividas no Ceará, precisamente em 1888, quando vários grupos de famílias saem de Almofala, no litoral, em direção às matas e beiras de rios em busca de alimento e melhores condições de habitação.[1]
Um desses grupos seguiu pelas matas, ao sul do município, estabelecendo-se num lugar que deram o nome de Lagoa dos Negros. Outro grupo avança alguns quilômetros, desbravando a área onde atualmente é a TI. Córrego João Pereira, no limite entre os municípios de Acaraú e Itarema.
Na Lagoa dos Negros viveram alguns anos até a chegada do fazendeiro Doca Sales. O nome do local faz referência a uma lagoa que teria sido desencantada pelo pajé João Cosmo. O pajé, um dos líderes do grupo, teria “achadouma grande lagoa, cercada por uma densa vegetação. No entanto, a lagoa estava encantada. Foi aí que o pajé se utiliza de suas virtudes mágico-religiosas para desencantar a lagoa, consolidando a ocupação dos Tremembé na região.
Entretanto, como relatam Brissac e Marques (2005), não tardou para que o fazendeiro Doca Sales descobrisse e cobiçasse a terra, expulsando as famílias do local, tendo em vista que pela abundância de água, o local era propício para a criação de gado. Neste momento, ocorre uma segunda dispersão tremembé que, após a expulsão da Lagoa dos Negros se dividem entre Queimadas e várias localidades próximas.[2] Viveram no local por mais de 30 anos, até sua expulsão em 1927.[3]
Com a dispersão, algumas famílias foram se alojando em algumas comunidades próximas até  que decidem se fixar e ocupar o lugar onde viriam a denominar Queimadas. Um grupo de sete famílias se estabelecem num lugar descampado, sem vegetação, decorrente de uma queimada de proporções gigantescas. Deste fenômeno ambiental surgiu a denominação Queimadas. Segundo relatos orais, a ocupação do território teria se iniciado em setembro de 1927 (Brissac e Marques, 2005; Patrício, 2010).
A partir desta data os Tremembé de Queimadas, ao mesmo tempo em que finalmente conseguem se fixar num local, vão sendo lentamente pressionados pela ambição de posseiros que tentam tomar suas terras. Conforme o relatório antropológico da TI. Queimadas,

“Os anos que se seguiram após a chegada em Queimadas foram de muito esforço para todos. Como vimos nos relatos acima. Assim como ocorreu na Lagoa dos Negros, fazendeiros do gado também chegaram a Queimadas. Acima se mencionou que nas vizinhanças, onde futuramente seria a T.I Córrego João Pereira, havia conflitos para a expulsão das famílias Tremembés, em Queimadas não foi diferente, um fazendeiro de nome Major Duca e outro chamado de Chico Rios faziam a grilagem de terras na região com ameaças de expulsão e morte. Somente em 1957, com a fragilidade das famílias que viram aos poucos seus membros mais idosos serem subtraídos e seu território reduzido cada vez mais, é que tomaram providencias” (Patrício, 2010, p. 45).

Três irmãs, duas delas viuvas e a outra solteira, recorrem á justiça na época, na tentativa de registrar e garantir juridicamente a posse da terra ocupada, como relata Antonio Félix, liderança indígena de Queimadas, hoje falecido:

“Quando morreram os véio tudinho os homens, ficou as mulheres. Aí o povo mesmo do Acaraú se compadeceu delas e vamos fazer o documento desta terra antes dos tubarão. Aí fizeram no 57, da légua de terra como era que eles tinham chegado, mas botaram os confinantes logo. Do jeito que diz aqui: Manoel Duca da Silveira no Norte, Zé Emiliano de Freitas no Sul, Antonio Monteiro da Costa no Poente e a carroçal do Acaraú a Fortaleza, diz tudinho nos documentos. Aí as véia morreram e nós fiquemos e aqui tamos quando chega o DNOCS se apresentando”.[4]

O documento citado por Antonio Félix indicava que área do povoado Queimadas teria uma légua em quadro, o equivalente a 3.600 hectares. Ainda segundo Patrício (2010), ao longo das décadas de 60, 70 e 80 do século passado, as famílias vão gradativamente perdendo o controle da terra, com as invasões ou negociações ardilosamente realizadas com fazendeiros que se apossam da terra em troca de produtos alimentícios, tecidos ou por valores módicos, numa prática bastante conhecida e recorrente no Nordeste.
A comunidade vive relativamente tranquila até a chegada do DNOCS que desapropriou uma extensa área de terras para construção do Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú. O início do projeto data de 1981, mas os conflitos com os Tremembé de Queimadas se iniciaram no final dos anos 80 quando, não reconhecendo a presença de populações indígenas, o órgão inicia o processo de desapropriações das terras. Os conflitos foram se arrastando por mais de uma décsda, até que se intensificaram em 2005, quando é expedida uma ordem de despejo para as famílias, que deveriam desocupar a área em 72 horas.
Na época, o caso mobilizou Ong’s indigenistas, o MPF, FUNAI e outros segmentos da sociedade civil, além da imprensa, gerando grande alvoroço, sobretudo pela iminência de um conflito entre a polícia e os Tremembé, não só de Queimadas, mas de várias localidades que planejavam se reunir para impedir a entrada dos tratores que iriam demolir as casas. A atuação da Associação Missão Tremembé, da FUNAI e de políticos, além da repercussão do caso nos jornais, obrigou o DNOCS a retroceder. Em seguida a FUNAI conseguiu na justiça a paralisação das obras até que os estudos antropológicos fossem realizados.
Dentre os processos de territorialização dos Tremembé, Queimadas foi a última a iniciar o processo de organização sociopolítica de perfil étnico. Como se poderia esperar, é a partir do conflito com o DNOCS, aliado ás articulações indigenistas, que inicia o processo de emergência étnica dos Tremembé de Queimadas. Além disso, a proximidade espacial e social com os Tremembé do Córrego João Pereira também se constituiu como um fator importante na construção da etnicidade em Queimadas, tendo em vista as íntimas relações entre famílias das duas situações, como também o caráter pedagógico da situação vivida no Córrego João Pereira anos antes, servindo como um modelo de ação política de caráter étnico.
Em março de 2010 foi formado o Grupo de Trabalho – GT da FUNAI que realizou o estudo de identificação e delimitação da Terra Indígena Tremembé de Queimadas. Em dezembro de 2011, foi publicado no Diário Oficial da União o resumo do relatório circunstanciado de identificação e delimitação em que foi definida a área da TI totalizando 767 hectares. A aldeia Queimadas tem uma população de 220 indígenas, agrupadas em 44 famílias[5]

Mapa das TI's Queimadas, Córrego João Pereira e Almofala
Fonte: Relatório de Identificação e Delimitação da TI Queimadas (Cf. Patrício, 2010).
 

Enquanto o processo demarcatório não é concluído, os Tremembé de Queimadas tem se voltado, nos últimos anos, para discutir estratégias de sustentação econômica na própria aldeia, já que muitos indígenas ainda trabalham fora da comunidade, principalmente como diaristas no Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú. Essas estratégias perpassam dois aspectos principais: os métodos de produção agrícola e as condições ambientais (Lopes e Bezerra, 2011 e Lopes, 2012).
A demarcação da TI Queimadas ocorre num momento em que algumas ações começam a ser esboçadas no território tradicional, no sentido de mobilizar a comunidade local, instituições parceiras e órgãos do governo federal para a promoção da gestão ambiental e territorial da terra indígena. Dentre estas ações destacam-se o projeto apoiado pela Carteira Indígena/MMA e as ações de acompanhamento e monitoramento realizadas pelo Programa de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas – GATI, coordenado pela FUNAI e Ministério do Meio Ambiente – MMA.

Fotos: Ronaldo Santiago e Tiago Silva


 Bibliografia consultada

BRISSAC, Sérgio Telles. MARQUES, Marcélia. Relatório antropológico sobre os Tremembé de Queimadas. Fortaleza: MPF, 2005.
BRASIL. Portaria nº 1.702 de 19 de abril de 2013. Diário Oficial da União, Brasília, 22 abril, 2013. Seção 1, p. 34.
LOPES, Ronaldo Santiago. Diásporas, identidades plurais e a semântica da etnicidade: territorialidades Tremembé. Projeto de pesquisa – mestrado, PPGAS/UFRN, 2013.
LOPES, Ronaldo Santiago. Manejo agrícola e seus impactos em agroecossistemas indígenas: a situação dos Tremembé de Queimadas.  Tesesina: Encontro de Ciências Sociais do Norte Nordeste - CISO/PRÉ-ALAS, 2012. Anais CISO, p. 1-18.
LOPES, Ronaldo Santiago; BEZERRA, Tiago Silva. Assistência Técnica e Extensão Rural – ATER Indígena: relatos de uma experiência com as comunidades Tremembé de Acaraú. Fortaleza, Cadernos de Agroecologia, vol 6, No. 2, Dez 2011.
PATRÍCIO, Marlinda Melo. Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Tremembé de Queimadas, Acaraú/CE. Brasília: Funai, 2010.
SILVA, Cristhian Teófilo da Silva. Relatório circunstaciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Córrego João Pereira/CE. Brasília: Funai, 1999.
VALLE, Carlos Guilherme do. Terra, tradição e etnicidade: os Tremembé do Ceará. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado em Antropologia, PPGAS-MN/UFRJ, 1993.



[1] Sobre as migrações tremembé, Cf. Valle, 1993; Silva, 1999; Brissac e Marques, 2005.
[2] A dispersão dos Tremembé da Lagoa dos Negros não se restringiu apenas a Queimadas. Em toda a região circunvizinha à Lagoa dos Negros existem famílias que atualmente ainda mantém vínculos de parentesco com os Tremembé do Córrego João Pereira e de Queimadas. Entre as localidades identificadas estão Pedrinhas, Córrego do Augustinho, Córrego da Volta, Córrego dos Fernandes, Gameleira e Aroeira, em Acaraú. Mais detalhes, conferir Patrício (2010).
[3] Em 1997, a fazenda Volta/Lagoa dos Negros é desapropriada pelo INCRA, tornando-se um assentamento federal, com área de pouco mais de 3.000 hectares. Segundo dados do MDA, atualmente o assentamento possui 79 famílias.
[4] Op. cit., p. 45.
[5] Cadastro FUNAI, 2010.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Índios no Ceará: Falta de demarcação das terras indígenas gera crimes e violência


 Matéria publicada no Diário do Nordeste em 20/08/2012 



A questão fundiária está intimamente ligada à violência e ao uso de drogas nas aldeias indígenas cearenses

Na aldeia dos Pitaguarys, em Pacatuba e Maracanaú, crianças e adolescentes participam de projetos de prevenção ao uso de drogas e álcool. O objetivo do grupo é aumentar a autoestima e repassar um pouco da história da etnia.
 
"Constituem crimes contra os índios e a cultura indígena: propiciar, por qualquer meio, a aquisição, o uso e a disseminação de bebidas alcoólicas, nos grupos tribais e/ou entre índios não integrados. Pena - detenção de seis meses a dois anos". O trecho faz parte do artigo 58 do Estatuto do Índio, assegurado desde 19 de dezembro de 1973. Contudo, a legislação não é respeitada na maioria das aldeias indígenas do Ceará e, por conta disso, alguns povos, como os Jenipapos-Kanindés, de Aquiraz, e Pitaguarys, de Pacatuba e Maracanaú, foram obrigados a fechar o acesso de suas aldeias para evitar conflitos e crimes.

Segundo a advogada Aline Furtado, integrante da equipe do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza, que presta assessoria jurídica aos povos Tapebas, Pitaguarys e Jenipapos-Kanindés, a violência nas terras indígenas do Ceará é recorrente e tem relação forte com a questão fundiária, ainda longe de ser solucionada no Estado.
"A violência e o consumo de bebida alcoólica e outras drogas nas aldeias estão intimamente ligados à questão da terra. Os não-índios não respeitam a posse da terra pelos indígenas", pontua a advogada.
No Ceará, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativos ao Censo 2010, existem 19.336 índios, divididos em 14 etnias. Destes, 12.598 estão na área urbana e 6.738 na área rural. Porém, somente o povo Tremembé do Córrego João Pereira, de Acaraú e Itarema, tem sua terra homologada. "Os índios só passam a ter direito de fato às terras quando são homologadas pelo Ministério Público como áreas indígenas", explica.

Sem homologação, algumas etnias lutam como podem para manter a integridade física dos seus membros, de suas propriedades e protegê-los da violência.

No sábado (11), o povo Jenipapo-Kanindé fez uma "corrente humana" para impedir o acesso de não-índios às terras da Lagoa da Encantada, em Aquiraz. De acordo com a cacique Juliana Alves, a ação será feita aos fins de semana para coibir o uso de drogas, de bebidas alcoólicas e crimes na aldeia.
O alcoolismo gera problemas familiares e de saúde em muitos indígenas
FOTO: WALESKA SANTIAGO

A atitude radical foi tomada após o assassinato de um morador da comunidade, no último dia 6, que teria sido motivado pelo uso de drogas. "Nós fechamos a entrada, mas estamos recebendo ameaças até de morte", alerta a cacique.

A advogada do CPDH disse que essa não é a primeira denúncia desse tipo que a instituição recebe. "As belezas naturais das aldeias indígenas atraem pessoas que querem fazer uso da área como ponto turístico, levando bebidas e alimentos. Porém, quem decide pelo livre acesso é o indígena", esclarece.

Aline Furtado também chama a atenção para a ação recente, feita pelos índios Pitaguarys, que permaneceram acampados por quase cinco meses, impedindo o acesso das comunidades do entorno ao açude da aldeia, cujo acesso hoje está impedido por uma corrente, em Maracanaú.

Já em Caucaia, especialmente entre os Tapeba que vivem na comunidade da Ponte, próximo ao Rio Ceará, o problema são os crimes. "Há pouco tempo, vivenciamos um clima muito tenso naquela região porque as casas estavam sendo assaltadas. Para proteger as suas propriedades, alguns indígenas foram presos, por estarem portando armas sem autorização", afirma.

Segurança

Quanto à segurança, Aline Furtado diz que, pelo fato de as terras ainda não terem sido demarcadas, ainda não há consenso sobre qual polícia deve atuar no local. "Se as terras fossem homologadas, só a Polícia Federal poderia ter acesso. Algumas vezes, precisamos de policiamento e ninguém quer nos atender".

De acordo com o assessor de imprensa da Polícia Militar do Ceará, coronel Albano, a corporação atua nas áreas indígenas sempre que existe alguma ocorrência, seja lesão corporal, homicídio ou qualquer outro crime. "Nós atendemos como qualquer outra comunidade", explica.

Dados

De acordo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai), não existem dados sobre a situação de consumo de álcool e drogas por índios no Brasil. A Secretaria ainda esclarece que o Distrito Especial Indígena (DSEI) Ceará realiza ações de promoção de saúde, prevenção e redução de danos para o uso de álcool e outras drogas na atenção primária.

Também segundo a Sesai, em 2011, as ações foram reforçadas em todo o País, com a contratação de cerca de 40 psicólogos para atuação na saúde mental, sendo dois responsáveis pelo Ceará. Ações são realizadas a partir de uma adequação às especificidades culturais das etnias, com a participação das comunidades, buscando articulação com a educação, esporte e assistência social. Já os pacientes indígenas que precisam de atenção especializada são encaminhados aos equipamentos de saúde mental municipais ou estaduais.


Combate às drogas é feito de forma diferente pelas etnias

Grupo Iandé Meme Maranongara, composto por crianças e adolescentes indígenas Pitaguarys, atua na prevenção ao uso de drogas ilícitas e também de bebidas alcoólicas na comunidade.
O apoio de outras entidades, como Organizações Não-Governamentais e prefeituras dos municípios, faz toda a diferença no combate ao alcoolismo e ao uso de drogas entre os indígenas no Ceará, principalmente no que diz respeito aos povos que vivem em áreas próximas à Capital cearense, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Grupo Iandé Meme Maranongara, composto por crianças e adolescentes indígenas Pitaguarys, atua na prevenção ao uso de drogas ilícitas e também de bebidas alcoólicas na comunidade
FOTO: WALESKA SANTIAGO

A equipe de reportagem do Diário do Nordeste visitou duas comunidades indígenas: os Tapeba da Lagoa II, que residem em Caucaia, e os Pitaguary, que vivem na zona rural do município de Maracanaú.
De acordo com o facilitador de artes indígenas Carlos Guedes, índio Pitaguary que desenvolve projeto com crianças e adolescentes na região há mais de dez anos, a saída encontrada por essa etnia é a prevenção.
"Não estamos livres das drogas, mas procuramos conscientizar essas crianças de que não se deve usá-las", explica.

Carlos Guedes coordena o grupo "Iandé Meme Maranongara", que, em tupi, significa "Somos todos parentes", composto por 28 crianças e adolescentes de idades variadas, que vão de sete a 13 anos e meio.

Os beneficiados participam dos encontros do grupo semanalmente e recebem lanche fornecido pela prefeitura de Maracanaú. O projeto ainda tem parceria com várias instituições privadas, como colégios particulares, que oferecem bolsas de estudo para os integrantes do grupo. "Procuramos fortalecer a autoestima deles para que quando eles chegarem ao mercado de trabalho, não terem tantos problemas ao se assumirem como índios, como a discriminação", diz.
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Através do projeto, vários jovens estão matriculados em cursos técnicos e de nível superior e outros já até conseguiram sua vaga no primeiro emprego. "Temos uma ex-aluna que é gerente de loja em uma rede de farmácias e outro que está fazendo faculdade de Contabilidade", comemora o facilitador de artes indígenas, Carlos Guedes.

Entre as atividades desenvolvidas pelo grupo, está a dança do Toré e outras apresentações tradicionais. O figurino, confeccionado em palha de carnaúba e penas de aves, é feito por Carlos Guedes e sua esposa, Ana Lúcia Silva Duarte, índia Kanindé. "Nós fazemos apresentações em escolas, instituições públicas e privadas e, inclusive, já fomos até para a Itália, mostrar a cultura dos índios Pitaguarys", conta.

Sobre casos de alcoolismo e uso de drogas ilícitas dentro da aldeia, Carlos Guedes diz não ter conhecimento. "Nós tínhamos muitos problemas quando o acesso ao açude era permitido a todos, porque não-índios usavam drogas e bebidas por lá e sempre tinha confusão. Mas agora está tudo bem mais calmo", relata.

Falta de apoio

Em Caucaia, a realidade do povo Tapeba é bem diferente. Apesar de cada comunidade integrante da aldeia contar com um grupo cultural, composto de crianças e adolescentes, a falta de apoio de entidades não governamentais e também do poder público ajudam a aumentar as estatísticas de alcoolismo, uso de drogas ilícitas e até de assassinatos dentro da aldeia.

Segundo a agente de saúde indígena Iracema Matos, índia Tapeba que atua nas comunidades da etnia há cerca de 15 anos, o alcoolismo é um problema que atinge muitas famílias.

"O índio tem o costume de usar bebida alcoólica em seus rituais. Só que alguns começaram a substituir pela cachaça e se viciaram. O mocororó (bebida feita de caju, utilizada nos rituais do Ceará) é muito forte e não se pode exagerar nas doses", afirma. Iracema Matos e a também agente de saúde indígena Sílvia Nascimento participaram, no ano passado, de um curso oferecido pelo Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai), de facilitador de Terapias Comunitárias, em Porto Seguro, na Bahia.

Desde então, as duas realizam entre os Tapebas encontros mensais, abertos a toda a população indígena da aldeia, para que exponham as angústias. Porém, os problemas gerados pelo alcoolismo estão sempre presentes. "A violência causada pelo uso de álcool é muito citada pelos participantes", relata Iracema.

Além da bebida alcoólica, o crack também já faz suas vítimas na aldeia. "Tenho um familiar que mora aqui, é viciado e não quer se tratar. Ele começou com maconha, trazida por pessoas de fora e ele agora é dependente da ´pedra maldita´, o que destruiu a família, porque separou da mulher e tem quatro filhos pequenos", conta Sílvia Nascimento.

Iracema Matos dá assistência a uma índia, também mãe de quatro filhos pequenos, dependente de crack. "Ela me contou que começou a usar com as pessoas da família, dentro da aldeia. Depois que conversei com ela, orientando que poderia perder a guarda dos filhos por causa do vício, ela parou e está há quatro meses sem usar".

Para tratar dependentes químicos, entre os Tapebas, a única opção é encaminhar para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do município de Caucaia. "Não temos convênio com nenhuma clínica de tratamento. Lutamos contra as drogas aqui praticamente sozinhas", desabafa Iracema Matos.

Apesar de os números do IBGE apontarem que 52% dos indígenas cearenses não possuem rendimentos, as duas agentes de saúde afirmam que entre os dependentes atendidos pela Terapia Comunitária, a maioria trabalha. "Praticamente todos os que temos notícia que usam droga ou álcool têm emprego e assim sustentam o vício", revelam.

Para aumentar a renda em casa, o autônomo Francisco (nome fictício) decidiu diminuir o uso de bebida alcoólica. "Bebia nas minhas folgas, dia sim, dia não, e isso estava me deixando cansado. Só bebo agora nos fins de semana e já comecei a economizar. Quero deixar de vez", confidencia Francisco.

Políticas públicas ainda são insuficientes

"Não existe uma tendência natural do índio para se tornar alcoólatra ou dependente químico". A afirmação é do antropólogo e professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Gerson Augusto Oliveira Júnior.

Segundo o antropólogo, a dependência de drogas lícitas e ilícitas é um problema que diz respeito à sociedade como um todo. "A destruição das referências aproxima o homem do vício e as drogas, hoje, afetam todos os segmentos da sociedade", frisa.

Para Gerson Oliveira Júnior, deveriam ser criadas políticas públicas para combater essas práticas. "No fim do século XIX e início do século XX, a sociedade americana era considerada alcoólatra. Porém, as autoridades se preocuparam em combater o vício com leis rigorosas que ainda hoje perduram", lembra.

A historiadora Ana Lúcia Tófoli também ressalta que a associação dos indígenas ao consumo de álcool e drogas contribui para uma visão estigmatizada que se construiu em torno das populações indígenas no Ceará.

"Sem dúvida, este é um tema complexo que envolve questões ligadas à saúde, segurança pública e políticas indigenistas mais eficientes, sobre os quais carecem de mais estudos qualificados em nosso Estado", afirma a historiadora.

Ana Lúcia ainda alerta sobre o fato de alguns dos povos indígenas estarem muito próximos à Capital cearense, o que contribui para o agravamento do quadro de violência. "É importante elucidar que alguns povos, como Tapeba, Pitaguary e Jenipapo-Kanindé encontram-se dentro ou muito próximos da Região Metropolitana de Fortaleza, nas imediações de indústrias e rodovias. Portanto, sujeitos aos impactos inerentes a qualquer grande cidade brasileira: violência urbana, tráfico e consumo de drogas", afirma.

Além disso, de acordo com a historiadora, a situação se torna mais grave, devido à não demarcação da maioria das terras. "Mesmo as que estão demarcadas, ainda não foram desintrusadas (retirada e indenização de pessoas não indígenas), dificultando a restrição da entrada de pessoas estranhas", destaca.

Identidade

Já o impacto do reconhecimento da identidade dos indígenas pelas comunidades do entorno pode ter várias facetas. "Isso pode variar bastante, pois ´a comunidade do entorno´ pode ser desde industriais até quem compra terrenos em loteamentos irregulares, voltados à população de baixa renda", esclarece.

Ana Lúcia chama a atenção para quem faz uso das áreas indígenas para "turismo". "As pessoas que procuram esses espaços para o lazer, muitas vezes, o fazem associado ao consumo de álcool e drogas. Via de regra, não estabelecem relações respeitosas com as populações nativas e desconsideram ou desconhecem os limites das terras".

KELLY GARCIA
REPÓRTER