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domingo, 31 de março de 2013

Diagnóstico Rural Participativo - DRP Tremembé

Árvore de Problemas em Telhas

Árvore de Problemas em Queimadas

Como a postagem sobre os diagnósticos rurais é uma das mais acessadas no blog, até hoje (31/03) foram exatamente 1.084 visualizações, e devido á procura dos leitores, sobretudo, através dos mecanismos de busca do Google, resolvi disponibilizar os arquivos com os DRP's de Telhas e Queimadas de maneira mais fácil de ser baixada para quem tiver interesse de ler o conteúdo dos documentos.

É necessário, porém, o entendimento de que todo documento é contextualizado historicamente. Realizamos esse trabalho, eu e Tiago, em fevereiro de 2010, portanto, há mais três anos. De lá pra cá muita coisa mudou, e a expectativa era justamente esta: que os DRP's pudessem orientar as ações das instituições parceiras dos índios no que diz respeito às questões socioeconômicas, produtivas, políticas e ambientais. 

Entretanto, o valor histórico da publicação permanece, servindo como um parâmetro de comparação do passado (bem próximo) com o atual momento.
Os arquivos estão agora disponibilizados no Google Drive, livre para quiser baixar. Aqui estão os links:



quinta-feira, 28 de março de 2013

Tremembé de Queimadas doa mudas ao Córrego João Pereira


Momento de interação entre os indígenas


Dando continuidade às atividades referentes às metas do projeto da Carteira Indígena em Queimadas, foi realizada a oficina de agroecologia e a entrega das mudas para as famílias participantes do projeto. Como desdobramento desta atividade, a comunidade de Queimadas, numa articulação conjunta entre as lideranças Tremembé, os técnicos que acompanham o projeto, o GATI e a CTL de Itarema, um grupo de lideranças da TI. Córrego João Pereira (aldeias São José e Cajazeiras) esteve na TI. Queimadas para um momento de intercâmbio e troca de experiências com as famílias que estão participando do projeto de produção de mudas e construção de sistemas agrícolas de manejo ecológico. 

Durante o encontro, o grupo visitou o quintal do Zé Maria, AISAN da comunidade, que contou sobre o início do projeto com quintais produtivos, no início de 2010, quando as primeiras mudas foram distribuídas para as famílias de Queimadas. Zé Maria mostrou para os visitantes como estavam as mudas plantadas naquela oportunidade.
Em seguida, se dirigiram para o viveiro de mudas e para o sistema agroflorestal mantido por Evaldo Nascimento e seu irmão Luciano. Visitaram o viveiro, foram informados sobre detalhes da produção e o modo de plantio das mudas. Além disso, tiveram uma aula com Evaldo sobre a produção de repelentes naturais e biofertilizantes.

Encontro dos indígenas na escola de Queimadas

Visita ao quintal do Zé Maria
Caminhada ao viveiro de mudas

Grupo recebendo instruções no viveiro de mudas
Tanque de criação de peixe no meio da mandala
Evaldo ensinando como se produz biofertilizantes

Visitaram ainda a horta em sistema mandala, manejada por Mairton, Evaldo, Oliveira e Welto, onde puderam conhecer a experiência de plantio de hortaliças, frutas e leguminosas, além da criação de peixe no tanque situado no núcleo da mandala.

A visita teve como principal objetivo a doação de centenas de mudas produzidas em Queimadas para as duas aldeias do Córrego João Pereira. Portanto, a atividade já foi um desdobramento de uma meta traçada pelo projeto da Carteira Indígena de Queimadas que contemplou as aldeias do Córrego que por sua vez estão implantando outro projeto financiado pelo GATI. Com esta atitude, a aldeia Queimadas se consolida como uma referência na gestão ambiental de terras indígenas e na adoção de sistemas ecológicos de plantio.

O encontro foi mediado pelo técnico Tiago Silva e Antonio Neto, coordenador da CTL-FUNAI de Itarema. No fim da vista, o grupo recebeu as mudas que foram transportadas no carro da FUNAI até o local de destino.


Abastecendo o carro com as mudas doadas
Antonio Neto, da CTL de Itarema, acompanhando o grupo de lideranças do Córrego

Créditos:
Informações: Tiago Silva Bezerra
Fotos: Tiago Silva Bezerra e Caroline Moreira

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Oficina de Agroecologia e Permacultura em Terra Indígena, Tremembé


Este final de semana, entre o dia 15 e 18, iniciamos uma oficina de Introdução à Agroecologia na aldeia indígena Tremembé de Queimadas, Acaraú-CE. Essa atividade faz parte do item 4 previsto pelo Projeto de Mulheres que foi aprovado pelo Carteira Indígena (CI)/MMA no valor de R$ 49.600,00. O objetivo do projeto é fortalecer a Organização das Mulheres Indígenas através de reuniões, encontros e formações, do Conselho Indígena por meio da estruturação, compra de equipamentos e formação em Gestão de Grupo, a promoção do Manejo Ecológico  dos sistemas de produção e conservação dos recursos naturais, via produção de mudas de essências florestais e frutíferas, implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) e capacitação em Agroecologia, e ainda o fortalecimento da Cozinha Comunitária  a partir da compra de equipamentos e acesso à Mercados de Compra Institucional, como PAA e PNAE.
Reunião com a comunidade de Queimadas.
Como foi falado no início do texto, a atividade realizada recentemente foi uma Oficina de Agroecologia com carga horária de 36 horas. Essa atividade tem como objetivo capacitar indígenas que estão iniciando a implantação de seus quintais, através de técnicas de manejo ecológico do solo e ampliar alguns conceitos sobre permacultura em Terras Indígenas. Porém, por conta de alguns probleminhas que surgiram no início do Projeto (que ficou parado mais de 3 meses) tivemos que centrar um pouco mais de energia em diálogos organizacionais, a fim solucionar ou mitigar futuros problemas de organização e gestão do projeto.
Assim, a formação foi estrutura em 3 momentos (organização para produção de mudas, distribuição e mutirão de plantio, manejo e tratos culturais do sistema de produção).
  • Organização e produção de mudas – O projeto tem recursos para aquisição de 10 mil mudas diversificadas. Como a comunidade já tem um Viveiro de Mudas ativo e existem pessoas capacitadas para a produção, nada mais justo que a comunidade produza essas mudas e o recurso circule dentro da aldeia, trabalhando assim o princípio da Economia Solidária. Diante disso, foi feita reunião com os possíveis produtores (no total de 10) e explicado como deveria ser feita a produção, em quantidade e diversidade (cerca de 20 espécies de plantas frutíferas e nativas, sendo uma quantidade de 1 mil mudas, cada produtor). Assim, aproveitamos a formação para fazer um diagnóstico da situação das mudas tendo como perguntas geradoras: Quem produziu o quê? Quantas? Qual o estado de desenvolvimento das mudas? Quem da comunidade vai querer o quê e quantas? Diante dessas perguntas tivemos como resposta, que foram produzidas nessa primeira etapa cerca de 6 mil mudas e 28 famílias que irão plantar um total de 3 mil mudas. Um número ainda reduzido, pois muitas ainda estão iniciando seus quintais e não têm experiência com o plantio e cuidado de mudas. 
Levantamento e seleção das mudas que serão distribuídas para a comunidade (Quintal de Dona Socorro). 
Produção de Mudas dentro do Sistema Agroflorestal em Transição (Polonga).
Mudas de cajueiro em estado avançado de desenvolvimento, pronto para ser transplantado (Sr. Chiquinho).
Viveiro de Mudas da Comunidade de Queimadas com capacidade de produção de mais 10 mil mudas
(Responsáveis: Evaldo, Luciano, Paulo e Oliveira).
Mudas de Angico (nativa).
Mudas de Emburana de Cheiro ou Cumaru (nativa).
  • A distribuição será feita nessa semana e haverá no final de semana dos dias 23 a 25 de fevereiro de 2013 um mutirão para plantio coletivo de todas as áreas a fim de garantir que todas as mudas estarão na “terra” até o início de fevereiro. Com o restante das mudas (3 mil) ficou como um acordo que estas serão doadas, juntamente com a presença da CTL de Itarema, sob a coordenação de Antonio Neto, para as comunidades de Telhas, Capim Açu, São José e Cajazeiras, da Terra Indígena Córrego João Pereira. Essa foi uma demanda construída a partir da visita que fizemos em outubro de 2012 a TI do Córrego com a presença do grupo consultor do GATI, Gestão Ambiental em Terras Indígenas, que contou com a presença de Isabel e Alexandre Pankaruru. E que será feito contato com indígenas do Córrego para irem participar da formação nesse período e aproveitar para se envolver no mutirão.
  • Os tratos culturais serão feitos no momento do mutirão onde serão dividias equipes e em cada uma delas terá uma pessoa indígena multiplicador, experiente na área de manejo ecológico, para informar aos demais como será feito o manejo. Aproveitaremos para fazer práticas de compostagem, produção de repelentes e biofertilizantes.

Ainda na visita aproveitamos para visitar a experiência de alguns quintais que vem dando certo desde 2009 e que estão bem desenvolvidos e não entra 1 g de agroquímico. Abaixo segue as fotos do quintal do Mairton, da Mandala.  
Plantio consorciado de pimenta de cheiro, macaxeira, feijão de corda, milho, araticum, pimentão e mamoeiro.
Hortas rotacionadas com plantio folhosas (cebolinha), depois será plantada tuberosas e em seguida frutos.
Mandala com produção de galinha na parte coberta, tilápia (alimentadas 30% com ração e o restante folhas
de macaxeira, batata doce e feijão) e fertirrigação para a hortas.
Em breve mais postagens sobre a conclusão da oficina e da entrega de mudas para o Córrego João Pereira.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Índios Tremembé de Queimadas iniciam implantação do Projeto Mandala

Um grupo de indígenas agroecológicos da aldeia Queimadas, em Acaraú, iniciou a preparação do terreno para a construção da horta Mandala. A implantação do projeto se deu a partir da parceria entre a Secretaria de Agricultura de Acaraú, a Ematerce, a Secretaria do Desenvolvimento Agrário – SDA (que financia o projeto) e o grupo de índios Tremembé que se interessou pelo Projeto Mandala.
As Mandalas são estruturas circulares de produção de alimentos formadas por círculos concêntricos que têm no centro um pequeno espelho de água, de onde parte o sistema de irrigação. Galinhas, patos, peixes dentre outras espécies de pequenos animais e uma diversidade de plantas dispostas estrategicamente convivem em uma área comum, formando assim um sistema interativo onde as necessidades de um são supridas pela produção do outro. Por exemplo, a galinha oferece esterco e aração para a plantação e se alimenta de ervas daninhas. Hastes de cotonetes de ouvidos dão forma à micro-aspersores e gotejadores adaptados pela criatividade (02 da figura abaixo à direita), bem como garrafas plásticas vazias de refrigerantes são transformados em instrumentos de irrigação no espaço Mandala (Texto: Agência Mandala).
Modelo de uma mandala implantada
Imagem da internet

A implantação do projeto seguiu algumas etapas que se iniciaram em julho deste ano. Inicialmente alguns representantes indígenas foram visitar uma mandala em operação na localidade de Lagoa Dantas. Os indígenas Evaldo e Paulo tiveram a oportunidade de conversar com um produtor sobre todo o processo de implantação da horta (construção do tanque, anéis, produção de composto orgânico, etc.). Como o grupo já possui experiência no cultivo de hortaliças e frutas na aldeia, não tiveram dificuldade em entender o processo.
Paulo,  Evaldo  e o Secretário Nacélio Cruz conversam com o Sr. Istevaldo que construiu o reservatório (Maio de 2011)
Visita aos canteiros
Posteriormente, técnicos da Ematerce e o Secretário de Agricultura Nacélio Cruz, foram até a aldeia Queimadas para vistoriar o terreno onde será construída a horta Mandala.
A terceira etapa consiste na documentação do Conselho Indígena e a abertura da conta para recebimento dos recursos para a compra dos equipamentos e a construção do tanque-reservatório.
Sr. Anastácio (gerente do escritório da Ematerce em Acaraú) visita a área onde será implantada a Mandala(Julho de 2011)
A documentação se refere aos dados de quatro famílias beneficiadas pelo projeto, ata e estatuto da associação (no caso dos Tremembé, o Conselho Indígena) e o número da conta bancária. Uma das vantagens do projeto é que o recurso cai diretamente na conta das associações, permitindo maior autonomia dos produtores.
Segundo Evaldo Tremembé, apesar do projeto estipular um número de quatro famílias beneficiadas, em Queimadas serão mais de dez famílias envolvidas. Vale lembrar que a Mandala vem ampliar a produção de hortaliças e frutas que desde o ano passado vem sendo produzida pelos indígenas. 
Finalmente, agora em dezembro, o grupo de indígenas iniciou a limpeza e a preparação do terreno. O grupo está bastante motivado e ainda segundo Evaldo, a mandala dos índios será a maior da região.
Com mais esse projeto, os Tremembé de Queimadas reiteram a opção por um modelo agroecológico de produção, pautado pela sustentabilidade econômica, social e ambiental, como também pelo solidariedade e o cooperativismo.
Parabéns a essa gente boa e trabalhadora!  


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Produtores Indígenas de Queimadas investem no cultivo de produtos agroecológicos




Algumas famílias de Queimadas estão investindo no cultivo hortaliças e frutas de base agroecológica. Tudo começou há pouco mais de dez meses, após a participação dos agricultores no curso de Agroecologia, conforme citamos na postagem anterior. Ao longo desse tempo, eles tiveram acompanhamento do técnico Tiago Silva, do Instituto Carnaúba que vem orientando e dando suporte aos indígenas.
Outro fator de sucesso tem sido o caráter solidário do trabalho desenvolvido pelo grupo, trabalhando de forma coletiva. Em menos de um ano, os olericultores indígenas possuem dezenas de canteiros produzindo cheiro verde, tomate, pimentão, pimenta de cheiro, alface, couve-manteiga e cenoura. Junto com os canteiros de hortaliças, o grupo vem plantando diversas espécies frutíferas como banana, caju e mamão.


Canteiros de coentro margeados por cajueiros

Bananeiras: além de produzir frutas, servem como quebra-vento
 
Além da área de hortaliças, foram plantadas nos últimos meses, mais de 1.000 mudas de árvores frutíferas e espécies nativas. O objetivo do plantio das mudas, tem não somente a finalidade produtiva, econômica, mas também de recuperar a mata nativa que foi parcialmente destruída para a construção do Perímetro Irrigado. Enquanto as árvores estão pequenas, são cultivados feijão, milho, macaxeira e batata doce. Desta forma, a proposta sugerida pela equipe técnica que acompanha a comunidade indígena e que foi colocada em prática pelos indígenas é a de Sistemas Agroflorestais – SAF’s, onde juntamente com a atividade agrícola, são conservadas e plantadas novas árvores.

Implantando o SAF: área onde foram plantadas centenas de árvores junto com feijão, milho e macaxeira

Viveiro onde são produzidas mudas de várias espécies
Além disso, outra preocupação do grupo é a de recuperação da mata ciliar do Córrego do Amargoso, que passa dentro da Terra Indígena. Neste sentido, foram plantadas dezenas de árvores como carnaúba, oiticica, juazeiro e sabiá. Apesar das pouquíssimas chuvas do último inverno, as espécies continuam vivas. Espera-se que dentro de alguns anos, com a recuperação da mata ciliar, o córrego possa armazenar água por mais tempo durante o período seco.

Córrego do Amargoso no verão

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Histórico

HISTÓRICO DO TRABALHO COM OS TREMEMBÉ DE QUEIMADAS E TELHAS
(agosto/2009 - setembro 2010)

O trabalho desenvolvido com as comunidades indígenas de Queimadas e Telhas em Acaraú é uma iniciativa dos técnicos do Centro de Referência da Assistência Social - CRAS. As atividades do CRAS de Acaraú com as referidas aldeias se iniciaram em 2005, mas até 2008 o trabalho socioassistencial se restringia a visitas pontuais, com distribuição de cestas básicas e outros benefícios eventuais. Não havia, até então, um trabalho de acompanhamento contínuo com tais comunidades. A partir de fevereiro de 2009, os técnicos do CRAS iniciaram um trabalho de acompanhamento social e assessoria técnica às duas comunidades indígenas.



No princípio... (fevereiro a julho de 2009)

Os técnicos do CRAS (um antropólogo e uma socióloga) traçaram uma estratégia para iniciar o trabalho: conhecer de perto as aldeias. Era necessário visitar cada uma das famílias, conhecer a história de cada um, as necessidades e os problemas internos de relacionamento existentes. Para isso, os técnicos tiveram que escutar, observar e interagir, e para isso, era preciso passar mais tempo, tendo portanto, que conversar, dormir, comer, brincar e se reunir com as famílias.
Somente desta forma, foi possível perceber o quanto as aldeias se encontravam fragmentadas, atomizadas, não só pela desesperança, falta de perspectivas e descrença nas autoridades, como também pelas desavenças, competições e intrigas internas. Diante disso, o que fazer?
Desde o início do trabalho era visível a urgente necessidade de organização social e política para que as comunidades pudessem ampliar seus horizontes, tomar conhecimento dos seus direitos, reivindicar e pleitear serviços e políticas essenciais para sobrevivência e melhor qualidade de vida. Entretanto, a descrença em relação aos poderes constituídos, a falta de assistência e a ação centralizadora, autoritária e às vezes individualista de algumas pessoas que se autodenominavam de “lideranças” havia causado o processo de fragmentação e desarticulação nas comunidades. 
Era, portanto, necessário um trabalho de sensibilização e mobilização política, de modo que eles pudessem se conscientizar de que somente unindo forças e se organizando eles poderiam conseguir reivindicar e lutar pelos direitos garantidos aos povos indígenas. Para isto, o Antropólogo Ninno Amorim[1], auxiliado pela Socióloga Raquel Monteiro, iniciou a realização de reuniões semanais em cada comunidade, onde eram discutidos temas relacionados à importância da criação dos grupos populares organizados. A metodologia das reuniões se baseava no livro Dinâmica de Grupos Populares, de William Castilho Pereira[2], na qual a partir de lições que envolviam vivências, debates, conversas e exibição de filmes, eram discutidos assuntos como liderança, conflitos, comunicação, união e assuntos correlatos. Paralelo a este trabalho, havia a visita constante às famílias a fim de persuadi-los a participar das reuniões coletivas.




Reunião comunitária na aldeia Queimadas






Reunião comunitária na aldeia Telhas

Como resultado deste trabalho, eles conseguiram a primeira conquista: começaram espontaneamente a organizar a fundação dos Conselhos Indígenas que representassem democraticamente os interesses da comunidade. Finalmente, a primeira meta foi atingida: os moradores de Telhas e Queimadas elegeram em assembléia geral a diretoria do Conselho.
Os Conselhos Indígenas são importantes instrumentos na busca pelos direitos das comunidades, pois expressam, de certa forma, o nível de organização e representação política e jurídica das aldeias. A partir dele, direta ou indiretamente, foi possível algumas conquistas importantes que iremos divulgar abaixo.



SEGUNDA ETAPA (a partir de agosto de 2009)

Desde agosto, assumimos a coordenação deste trabalho com alguns desafios: assessorar os Conselhos Indígenas de Queimadas e Telhas na continuidade do processo de organização social; promover articulação política com outras instituições; construir, junto com os indígenas, alternativas sustentáveis de etnodesenvolvimento, respeitando o contexto étnico, cultural e ambiental dos Tremembé de Acaraú.
Como as duas aldeias Tremembé em Acaraú é composta basicamente de agricultores familiares, pensamos numa proposta de trabalhar a atividade agrícola, de modo sustentável, preservando o meio ambiente, sobretudo, as matas, que para os Tremembé, tem uma representação espiritual e cosmológica, tendo em vista que nelas habitam os seres encantados, ou “encantes”, como eles dizem. Além disso, algumas espécies de árvores e ervas encontradas nas matas são utilizados na composição das garrafadas e outros remédios produzidos pelas mezinheiras.
Apesar da importância e da utilização das matas pelos Tremembé, o que percebemos foi um acelerado processo de desmatamento provocado pelo uso de queimadas na preparação para o roçado e pela ação do DNOCS (no caso da aldeia Queimadas), que devastou uma área considerável para implantação do Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú.

Parceria CRAS – SETASE - CARNAÚBA

A partir desta constatação, articulamos junto a Secretaria de Trabalho e Assistência Social – SETASE e o CRAS, uma parceria com a ONG Instituto Carnaúba, que resultou num projeto de assistência técnica na implantação de quintais produtivos de base agroecológica e sistemas agroflorestais. 

Curso de Agroecologia (novembro e dezembro de 2009)
 
O projeto se iniciou em novembro de 2009, com um curso de Agroecologia realizado alternadamente nas duas aldeias. No curso foi discutido a insustentabilidade do modelo convencional de agricultura, do ponto de vista ecológico, econômico e social, e proposto um modelo alternativo que seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente sustentável. Além das aulas teóricas, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer experiências exitosas de manejo agroecológico de agricultores experimentadores na Serra da Meruoca e Bela Cruz.



Momento teórico em sala de aula


Conhecendo uma experiência agroecológica no Sítio Santo Elias / Meruoca,  com seu Sabastião e famíla


Aula de campo com Professor Ambrósio em Bela Cruz


 Construção dos viveiros de mudas (janeiro de 2010)

Como desdobramento do curso damos continuidade ao projeto de construção de um viveiro de mudas em cada aldeia para a implantação de quintais produtivos e dos sistemas agroflorestais, acordado no final do curso de Agroecologia. O planejamento desta atividade foi de forma que as comunidades pudessem oferecer a contrapartida das despesas com a construção dos viveiros. Estabelecemos que eles ficariam responsáveis por retirar a madeira, construção do cercado, enchimento dos saquinhos e administração dos viveiros. Foi criada uma comissão em cada aldeia para articular e operacionalizar estas atividades. A nós, do CRAS, ficou a tarefa de articular junto à Secretaria de Assistência Social, a compra dos equipamentos necessários para montar o sistema de irrigação (canos, mangueiras, aspersores, bomba sapo, chulas, sacos plásticos, etc.). As comunidades se empenharam e fizeram, em forma de mutirão, os serviços que lhes foram atribuídos. Da mesma forma, a Secretaria arcou com as despesas dos equipamentos. Os viveiros possuem capacidade, juntos, para mais de trinta mil mudas.

Comunidade trabalhando no viveiro de mudas de Telhas

Indígenas da aldeia Queimadas organizando o viveiro de mudas


Implantação da unidade de produção de hortaliças – Aldeia Queimadas (janeiro de 2010)

Como desdobramento do curso, um grupo de oito famílias da aldeia Queimadas iniciou a produção de hortaliças de acordo com os princípios agroecológicos apresentados no curso realizado no mês anterior. A mudança para uma mentalidade agroecológica começava a acontecer com essas famílias que suas práticas de produção e manejo da terra.
Além do interesse pela agricultura ecológica, um outro estímulo para esse grupo produzir tomate, pimentão, cebolinha, alface entre outras hortaliças, foi a inserção destas famílias no Programa de Compra com Doação Simultãnea para amerenda escolar da CONAB, na qual o órgão federal compra e repassa a produção dos agricultores familiares para a merenda escolar do município.


Canteiro de Cebola




Construindo uma horta mandala




Uma parte do grupo de indígenas olericultores de Queimadas




Diagnóstico Rural Participativo – DRP (Fevereiro de 2010)

Durante o mês, foram discutidos também as possibilidades de captação de recursos para o desenvolvimento de projetos nas aldeias de Telhas e Queimadas. Entretanto, para isso eram necessários dados e informações sobre os aspectos produtivos, históricos e culturais dos Tremembé de Acaraú que pudessem fundamentar a elaboração de futuros projetos. Para isso, planejamos, sob a coordenação do Instituto Carnaúba, um Diagnótico Rural Participativo – DRP. A proposta do diagnóstico é traçar as potencialidades econômicas e produtivas e os principais obstáculos ao desenvolvimento sustentável das aldeias.
O Diagnóstico Rural Participativo (DRP) é um conjunto de técnicas e ferramentas que permite que as comunidades façam o seu próprio diagnóstico e a partir daí comecem a autogerenciar o seu planejamento e desenvolvimento. Desta maneira, os participantes poderão compartilhar experiências e analisar os seus conhecimentos, a fim de melhorar as suas habilidades de planejamento e ação. Embora originariamente tenham sido concebidas para zonas rurais, muitas das técnicas do DRP podem ser utilizadas igualmente em comunidades urbanas.
Desta forma, com a participação das famílias, através de dinâmicas, formação de grupos e dos posicionamentos colocados durante o processo, foi possível identificar as prioridades das comunidades, bem como a importância e a participação efetiva de algumas instituições apontadas pelos participantes. Além disso, foi pontuado também os fatores que dificultam o desenvolvimento das aldeias, sejam eles internos ou externos.




DRP na aldeia Telhas






DRP aldeia Queimadas


Inserção de representantes indígenas nos espaços de discussão e proposição de políticas públicas

A participação de representações indígenas nos espaços de deliberação de políticas públicas e de controle social é de fundamental importância para que as comunidades possam ser percebidas e contempladas por projetos e políticas sociais. Como exercício inicial, articulamos, através do CRAS, a participação dos Tremembé de Acaraú num seminário realizado pelo gabinete do Vice-Governador e a Secretaria do Desenvolvimento Agrário – SDA, sobre a construção de cisternas de placa em comunidades indígenas e quilombolas. A partir do convite feito pelo assessor do Vice-Governador ao CRAS, articulamos a ida de um indígena para representar os Tremembé de Acaraú. Como resultado das discussões realizadas, ficou definido em 7.000 a demanda por cisternas nas comunidades indígenas do Ceará. Desse número, 70 serão direcionadas para as aldeias Tremembé de Acaraú.


Participação no Comitê Setorial dos Indígenas do Território Litoral Extremo Oeste

Os representantes indígenas estão acompanhando e participando das discussões que acontecem nas oficinas e plenárias territoriais do Território Litoral Extremo Oeste, compondo o comitê setorial dos indígenas. Atualmente o Território está consolidando o Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável – PTDRS. Como conquista da participação dos indígenas, do CRAS e do Instituto Carnaúba, conseguimos incluir no PTDRS a proposta de construção de uma escola diferenciada para Telhas e um Centro Cultural para Telhas e Queimadas.




Construção do Reservatório de Abastecimento de Água de Telhas (Julho de 2010)

Articulamos, juntamente com a Prefeitura e a Secretaria de Infraestrutura do município, a construção de um reservatório de água para abastecer a aldeia Telhas que sofre com a falta d’água há vários meses. O prefeito Pedro Fonteles determinou a construção deste sistema de abastecimento a partir da demanda encaminhada pelo CRAS no final do ano passado. O reservatório receberá a água que vem de uma grande cacimba e será distribuída pela rede já existente na aldeia. A prefeitura construiu o suporte, instalando uma caixa com capacidade para 5.000 litros, juntamente com uma bomba que joga a água para o reservatório.




Reservatório de Telhas







[1] O Nino e a Raquel desenvolveram este trabalho até julho de 2009.
[2] PEREIRA, William Castilho. Dinâmica de Grupos Populares. 4 ed., Petrópolis: Vozes, 1986.